Festival Músicas do Mundo de Sines tem “obrigação” de promover justiça social

0

O Festival Músicas do Mundo, organizado pela Câmara Municipal de Sines, tem a “obrigação” de ser não só um espetáculo, mas de promover a justiça social, vinca o diretor artístico do evento, cuja 20.ª edição terminou no sábado.

“É um serviço público que nós estamos aqui a fazer. O festival é organizado por uma câmara municipal, portanto tem essa obrigação de tentar que o festival não seja só espetáculo, mas cultura”, sustenta Carlos Seixas, numa rara entrevista filmada, à Lusa e ao Porto Canal.

“Existe esse aspeto muito importante de justiça social, daquilo que o artista faz, daquilo que fala sobre a sua cultura. É um grito também de liberdade, de tentar que se preste atenção não só à música que eles fazem, mas também às dificuldades dos países que eles habitam”, realça o diretor e produtor do Festival Músicas do Mundo (FMM), que decorre anualmente em Porto Covo e Sines.

O FMM é “uma mistura muito especial entre o músico que vem, que mostra a sua música, mas também que declara a sua vontade de que o mundo seja melhor”, resume Seixas, recordando a ideia de que “a música não transforma o mundo, mas torna-o melhor”.

Após dez dias de concertos, que chegaram ao fim no sábado, Carlos Seixas destaca os princípios da “tolerância” e do “conhecimento do outro”, que guiam o FMM, que assume uma “identidade própria”, que o distingue de outros eventos mais comerciais.

Mais preocupado em mostrar artistas que “não têm capacidade nem possibilidades de se mostrarem nos grandes eventos”, o FMM “nunca tem um concerto ao mesmo tempo do que outro”, recorda Seixas.

“Isso é talvez uma das características que o festival tem em relação a um público que sabe que vai escutar a obra de um artista e que não está preocupado se há um outro de que também gosta a decorrer lá em baixo [na avenida da praia]. Há todo um processo de paz interior e de atenção àquilo que se encontra num palco que os leva a desfrutar um concerto inteiro, de 60-70 minutos”, descreve o programador.

Além disso, o FMM conta com “um público generoso, ávido de encontrar pessoas com culturas diferentes”, que “procura o que é desconhecido, aberto a novas experiências”, mas também “exigente”, assinala.

Em 20 edições, passaram pelo FMM “músicos de mais de 120 países”, contabiliza Seixas, que já está a preparar a edição seguinte.

“Nós pretendemos sempre mais. Importante é que chegámos aqui, após 20 anos, com a noção e com a consciência de que fizemos um trabalho honesto, rigoroso, que conseguiu trazer a Sines um mundo de pessoas”, sublinha.

Mais do que um festival, o FMM é “uma festa de comunhão com os artistas”, diz Seixas, frisando que Músicas do Mundo “não é uma etiqueta, uma classificação, é um estado de espírito”.

A comunidade rapidamente acolheu o festival como seu e, portanto, as mudanças políticas nunca mexeram no que “está bem”. “O festival cresceu, é benéfico para a economia local, é enormemente benéfico para a imagem de Sines. Qual é o político que não gosta disso?”, questiona Seixas.

Em declarações à Lusa, o presidente da Câmara Municipal de Sines, Nuno Mascarenhas, disse que a autarquia continuará a garantir o financiamento total do FMM.
“Sem dúvida”, frisou, explicando que a autarquia manterá parceiros e patrocinadores, mas “sem abdicar da identidade muito própria” do festival.

Em futuras edições, Seixas confessa que gostava de trazer Ladysmith Black Mambazo (África do Sul), que eram para ter vindo atuar nesta edição que agora finda.

Acima de tudo, será mantido “o espírito de descoberta”, continuando “a proporcionar um festival com identidade, único e exigente naquilo que apresenta e naquilo que acolhe”, garante.
Seixas não se move pela quantidade, mas pela descoberta de novos artistas. “Fico muito mais satisfeito de trazer aqui, por exemplo, Bulimundo do que os Rolling Stones”, exemplifica Seixas.

O grupo cabo-verdiano Bulimundo atuou às 00:15, depois de Oliver Mtukudzi & The Black Spirits (Zimbabué, 23:00). Ainda houve tempo, na noite mais longa da edição, para ouvir BaianaSystem (Brasil, 1:30), Mark Ernestus’ Ndagga Rhythm Force (Senegal/Alemanha, 3:15) e Cero39 (Colômbia, 4:30), depois de os jamaicanos Inner Circle terem ficado retidos no aeroporto de Munique, por uma operação de segurança que os impediu de apanharem a ligação para Lisboa.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Share This